Quando eu fecho os olhos, penso que vivo num planeta azul sem lixo nem decomposição química. E exercito toda aquela dinâmica de alongamento da alma: sinto a paz de minhas flores e espinhos nas pontas dos dedos e deixo as raízes em meus pés conversarem com as frestas da terra. Eu esqueço que tenho ossos frágeis, estou acima do peso e meu sangue circula mal. E apenas vôo. Eu penso que moro numa casa com sofás cômodos e almofadas coloridas onde o sol é filtrado nas frestas e o gato entra de manhã. Que há perfume de chá de morango, biscoitos de gengibre, fatias douradas e suco de melancia com canela, tilintando em gelo, no calor. E sinto o odor amadeirado do piso recém encerado, onde é gostoso deitar e ler histórias enquanto anelo os fios do teu cabelo. Eu esqueço que tantos sonhos desbotaram na água quente em que mergulhei a louça velha. E desfibraram como os lençóis baratos, gastos de tantas lavagens. Eu deixo de pensar nas frustrações que amargaram o doce da saliva. E esqueço o fato de que eu só posso mesmo ser feliz de vez em quando, embora tenham me prometido o contrário quando eu tinha 5 anos. (Também me prometeram um cachorro e uma fantasia da mulher maravilha que nunca vieram até que eu esquecesse e deixasse de lado, mas, desistir de tentar ser feliz são outros quinhentos). Eu fecho os olhos e acredito que meu cabelo tem esse tom marrom e os fios brancos saíram de viagem, sem promessa de retorno. Que a profundidade de minhas olheiras não escurece o meu rosto. E teimo acreditar nas verdades que tenho, as que eu escolhi viver e as únicas capazes de me dar algum sentido. Mesmo que não sobre tempo ou que em algum momento eu enxergue que estive andando na contramão enquanto o meu tempo voava sem mim. Mesmo que eu tenha falhado e falhado e perdido. Eu fecho os olhos. E as possibilidades se instalam. Como um gato que espreita na janela o tremor orvalhado da noite.