Devagar, devagarinho…

Acho que sou uma slow blogging desde criancinha – ok, ok, sou slow anything, então, não tenho valor pra estatística. Explico: Segundo o New York Times há um movimento de se ‘pegar leve’ com o blog, postando menos e de forma mais consistente – textos longos e contemplativos. Eles citam o exemplo dessa moça que atualiza umas duas vezes por semana e passa o tempo no blog falando das lindas paisagens e conversando com as pequenezas da natureza. Segundo a matéria, é toda uma onda zen dos blogs inspirados na slow food.

Eu não gosto de regras nem de categorias, pois levam a generalizações desnecessárias. Acho blog meio ‘livro’, o autor sempre dá o tom, e ele pode ser muito bom ou muito ruim, independente da freqüência na postagem ou da quantidade de texto. Então, viva a diferença. Mas, concordo com uma parte da reportagem em que uma estudante de cultura popular e tecnologia fala que houve, recentemente, um decréscimo nas postagens, pois muitas pessoas que usavam o blog para divulgar textos curtos, links de vídeos e fotos migraram para outros fóruns, como o flickr, o twitter ou o facebook. Creio que todos concordam que todas as formas de comunicação são válidas e devem ser exploradas, cada um tomando partido daquela que favorece sua produção. Quanto à minha lentidão, não há muito que fazer sobre. So, lets slow! Hehehe.

Créditos: Achei a indicação no Novo em folha, cujo feed assino muito em função de minha amiga Renatinha. De lá roubei as dicas abaixo, lembrando que a folha também traduziu, mas, daí, só para assinantes.

 

folheando uma reportagem sobre marketing pessoal, várias constatações:

Se eu não publiquei um livro, não sou escritora. Se eu não escrevo em jornal/revista, não sou jornalista.

Se eu não dou aula, não sou professora. Se eu não sei vender, não sou empreendedora.

Se eu não tenho talento, não sou artista. Se eu não freqüento escolas, não sou estudante.

Se eu não pulo do abismo, não sou suicida. Se eu não sei brigar, não sou lutadora.

Se não tenho equilíbrio, não sou trapezista. Se eu não tenho vínculos, não sou empregada.

Se eu não tenho casa, não sou moradora. Se eu não tenho filhos, não sou mãe.

Se eu não sou fluente, não falo um idioma. Sem certidão civil, não sou casada.

Se eu me divorcio, não sou solteira. Se eu não saio, não sou vista.

Se eu não tenho antenas, perco a sintonia. Se eu não me visto, não sou bem vestida.

Se alguém me conhece, não sou anônima. Se não tenho influência, não sou conhecida.

 Diante disso, uma dúvida: será mesmo que eu existo?

Tudo é vago e muito vário 
meu destino não tem siso, 
o que eu quero não tem preço 
ter um preço é necessário, 
e nada disso é preciso

Leminski.

Ontem eu caminhei meia hora, hoje comecei o dia tomando chá branco. Mais tarde vou sair para comprar o material para as coisinhas de Natal. Presentes feitos em casa, com mãos, cola, tesoura, fios e papel. Uma vez comecei a escrever um poema em que eu dizia que queria ser uma tecelã, a sensação que tenho é a de que pessoas que usam as mãos libertam-se da dor. Eu só uso as mãos para o teclado, cafunés e atividades domésticas. Eu não crio. Considerando os meus genes isto pode ser tomado como o meu primeiro fracasso, já que na minha família todas são bordadeiras, quituteiras, costureiras, pintoras e ainda fazem crochê, tricô, macramê. Depois eu fiquei pensando se não havia inibido esse lado meu, por pura birra, porque eu era uma criança feminista e me negava a fazer tarefas domésticas se meu irmão não me acompanhasse (na minha casa não havia isso de divisão das tarefas, a coitada da minha mãe só dividia com as secretarias e eu era motivada a participar para aprender como se fazia, então, revolta total e reivindicação de direitos iguais, desde os 7 anos). Minha avó também tentou me ensinar a fazer crochê e ponto de cruz, mas eu nunca fui além da trança. A impaciência não deixava. Aquilo era logaritmo para mim porque eu não tenho raciocínio mecânico – é verdade, testes confirmaram isso, uma vez, sou uma pessoa que pensa o mundo de forma abstrata, daí nada muito metódico evolui em minhas mãos. Mas eu gostava de desenhar e pintar, fazer colagens. Tudo o que proporcionasse alguma liberdade. Eu adorava quando a minha tia reunia os sobrinhos e sobrinhas em volta de um monte de revistas velhas e cartolinas e ensinava a gente a cortar e pintar. Meu primo era o melhor, mas ele não vale, porque é artista plástico, já expôs as colagens em eventos. Tenho duas colagens dele que são ‘o’ primor, vou fotografar e postar depois, ele merece post, o rapaz faz ponto de cruz e origami como ninguém, admiração profunda e infinita. Mas, continuando, eu adorava desenhar e colar. Que pena que perdi isso. Quem sabe ainda é tempo de recuperar…

Delírios que nos levem

Ariano Suassuna em uma de suas aulas espetáculo disse que havia sido repreendido pela ‘mídia especializada’ ao dizer que queria construir um santuário da cultura nordestina – “é um delírio de Ariano Suassuna”. Com aquela cara de ‘tou muito me importando’, ele falou: “Claro que é um delírio, são os delírios que nos levam a fazer alguma coisa, razão não leva ninguém a lugar nenhum”. Fofo.

Quando eu fecho os olhos, penso que vivo num planeta azul sem lixo nem decomposição química. E exercito toda aquela dinâmica de alongamento da alma: sinto a paz de minhas flores e espinhos nas pontas dos dedos e deixo as raízes em meus pés conversarem com as frestas da terra. Eu esqueço que tenho ossos frágeis, estou acima do peso e meu sangue circula mal. E apenas vôo. Eu penso que moro numa casa com sofás cômodos e almofadas coloridas onde o sol é filtrado nas frestas e o gato entra de manhã. Que há perfume de chá de morango, biscoitos de gengibre, fatias douradas e suco de melancia com canela, tilintando em gelo, no calor. E sinto o odor amadeirado do piso recém encerado, onde é gostoso deitar e ler histórias enquanto anelo os fios do teu cabelo. Eu esqueço que tantos sonhos desbotaram na água quente em que mergulhei a louça velha. E desfibraram como os lençóis baratos, gastos de tantas lavagens. Eu deixo de pensar nas frustrações que amargaram o doce da saliva. E esqueço o fato de que eu só posso mesmo ser feliz de vez em quando, embora tenham me prometido o contrário quando eu tinha 5 anos. (Também me prometeram um cachorro e uma fantasia da mulher maravilha que nunca vieram até que eu esquecesse e deixasse de lado, mas, desistir de tentar ser feliz são outros quinhentos). Eu fecho os olhos e acredito que meu cabelo tem esse tom marrom e os fios brancos saíram de viagem, sem promessa de retorno. Que a profundidade de minhas olheiras não escurece o meu rosto. E teimo acreditar nas verdades que tenho, as que eu escolhi viver e as únicas capazes de me dar algum sentido. Mesmo que não sobre tempo ou que em algum momento eu enxergue que estive andando na contramão enquanto o meu tempo voava sem mim. Mesmo que eu tenha falhado e falhado e perdido. Eu fecho os olhos. E as possibilidades se instalam. Como um gato que espreita na janela o tremor orvalhado da noite.